domingo, 15 de abril de 2012

Desencantos felizes


Ah, o amor que move as nossas ações e dá sentido aos nossos dias!
(O texto seguinte integra-se no desafio "Amor aos Pedaços" lançado pelo blogue Luz de Luma, com o tema "Desencanto".)


O primeiro sintoma manifestou-se no segundo ano do casamento. Era sábado e Júlia tinha perdido mais tempo do que o costume a preparar o jantar. Tinha-se esmerado. Não sabia bem porquê, não era para agradar ao marido, que estava na sala, a ver televisão, filmes atrás de séries, atrás de documentários… Estava amuado com qualquer coisa, mas Júlia já não se lembrava bem porquê, tinha-se tornado demasiado frequente. Lembrava-se, por isso, que não se tinha esmerado para agradar ao marido, também não havia visitas, nem nenhum acontecimento especial. Tinha-se esmerado porque lhe tinha dado prazer misturar ingredientes, inventar, mexer o tacho vagarosamente, perder-se nos aromas e nos sabores.
Finalmente, a mesa estava posta e a travessa na mesa. Chamou o marido. Recebeu uma resposta resmungada, vinda da sala: “Não me apetece jantar! Depois como qualquer coisa!” Em circunstâncias normais, Júlia ter-se-ia sentado a chorar, olhando para a travessa entre soluços e sentimentos de auto piedade. Mas a visão da travessa era demasiado tentadora: as massas misturavam-se com os cogumelos e os nacos de carne, os pedacinhos de cenoura e o tomate, num autêntico arco-íris culinário. Então, Júlia sentou-se e degustou cada garfada com um autêntico deleite.
O encanto dos tempos de namoro tinha-se desmoronado no meio da rotina do casamento. E Júlia ia-se apercebendo disso, sem saber como recuperar o romance. Sentia-se perdida, infeliz, desiludida.
O segundo sinal surgiu algum tempo depois desse jantar de sábado. O serão arrastava-se e Júlia revolvia-se sozinha na cama. Começou por se sentir triste, mas acabou por se levantar e fazer umas deliciosas bolachas de chocolate, que comeu com gelado.
Quando os filhos nasceram, os sintomas agravaram-se. Cada cena de gritaria era sublimada em bolachinhas de limão, ou biscoitos de canela. Uma desatenção podia gerar uma bôla de queijo e fiambre. Uma embirração, ou um amuo, podia dar origem a uma tarte de alho francês. Cada frustração transformava-se em queques de framboesa ou tarteletes de morangos.
E assim o desencantamento de Júlia se transformou na felicidade da família inteira.

29 comentários:

  1. Olá, querida Teresa

    "Tu és o orvalho que me beija"...
    (Meliss)

    Em pleno período pascal nos reencontramos para tecer o nosso Desencanto... entrelaçar partilhas de coração a coração...

    Menina,me vi comendo com ela as tortas deliciosas de morango... faço isso em pleno dia de semana numa confeitaria aqui perto... é mesmo um deleite como vc disse pra afogar os nossos melindres... "amuos"... agora mesmo estou caprichando num nhoque e já fiz uma torta de banana com creme e suspiro... Hum!!!
    Mas, não há Desencanto que resista à balança... de olho nela pra não descontar no corpo o que ele não recebe do Encanto... Prudência sobretudo no Desencanto!!!

    Obrigada por sua participação e nos vemos no próximo mês se Deus quiser!!!
    Bjs de Paz e Esperança junto com o meu carinho fraterno

    "Meu coração orvalhado
    pleno de gratidão,
    agradece a Deus"...
    (Élys)

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  2. Muito interessante a história...mas a heroína não ficará um pouco obesa?! :-))
    A mim nunca me daria para isso, sou fraca cozinheira! :-))

    Abraço

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  3. Miguel Ângelo Fernandes15 de abril de 2012 às 18:45

    Será essa a explicação para a obesidade de muitas mulheres?... Há homens que se queixam das mulheres que perderam a graça e se "desleixaram" e relativamente às quais dizem ter perdido o interesse...
    O que chega primeiro não sei, sei que as relações a dois só podem sobreviver se houver amor e capacidade para aprofundar essa relação todos os dias, cada dia da vida...
    Belo texto Teresa.

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  4. O empate às vezes é um bom resultado (não há vencedores nem vencidos) só que ela não se resignou (?) e... engordou.
    :)

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  5. Dizem que o doce sublima o desgosto, mas também provoca obesidade!
    O melhor não teria sido mandar o marido às malvas e partir para outra?
    Infelizmente, a obsolescência do amor é demasiado comum.
    Gostei da história.

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  6. Oi Teresa!
    Também participante da BC vim visistar os blogs e me deparo com seu interessante conto, uma maneira bem sui generis de superar o desencanto, seria uma sublimação?rsss
    Beijinhos!

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  7. Gostei bastante do seu enfoque ao desencantamento.
    bjs Sandra
    http://projetandopessoas.blogspot.com//

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  8. Olá, Teresa!

    Bem interessante essa história da Júlia! Um caminho inusitado, ela escolheu, para fugir do fantasma do desencanto. Pelo menos, neste caso, ela saiu lucrando, pois, desenvolveu um delicioso talento. E é isso mesmo que devemos fazer: a nossa felicidade não está nos outros, está em nós mesmos. Temos que buscá-la, e aprender a vencer as desilusões com muita fé e determinação.

    Beijos, querida
    Socorro Melo

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  9. Interessante. E esse desncanto não tornou a Júlia numa mulher obesa?
    Não? Mulher de sorte, com tanta coisa boa...
    Um abraço e uma boa semana

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  10. Pois é, amigos, há uma preocupação geral com a obesidade da Júlia. Eu também acho que ela vai engordar, é certo. Aprendeu a viver com o seu desencantamento e as suas frustrações, acho que sublimou tudo isso na cozinha. Mas não me parece que seja mais feliz!
    Hoje estou com pouco tempo para responder personalizadamente, como gostaria. Beijinhos e obrigada a todos os que por aqui passaram.

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  11. Bom, o marido da Júlia é um chato, em compensação, a restante família deve ser bastante redondinha! Mas há que se encontrar um jeito de não andar aí pelos cantos a chorar de infelicidade, não é? Pelo menos, sempre pôs em ação a sua criatividade... :)

    Beijocas!

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  12. O texto é esplêndido com uma punch line absolutamente fabulosa. Em toda a leitura estava a ser conduzido para o binómio depressão/obesidade. Que grande aplauso que dei no fim.

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  13. Oi Teresa,
    sua participação é digna de um blog de culinária!
    Tem algumas meninas dos blogs de culinária que não quiseram participar porque não sabiam como ligar o amor à gastronomia. Pois olhe que vou recomendar leitura do seu artigo. Aqui está a prova genial que é possivel ligar tudo com tudo.

    Foi uma surpresa agradabilissima passar por aqui.
    Estou seguindo a ordem numerica da lista para comentar.
    Por isso demorei. Mas quero saborear todas as "confecções" com carinho.
    Beijo além-mar.
    Rute

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  14. Bela história. Júlia soube encontrar um escape para esquecer a indiferença do marido.

    Cozinhar é terapêutico e faz bem.

    :)

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  15. Eu confesso que não gosto muito de cozinhar e não sou grande cozinheira. Mas é uma forma de sublimar frustrações, como outra qualquer. E, como escrevia a Rute, tudo liga com tudo, a cozinha liga com o amor, com a indiferença, com a saúde ou com a doença, com a auto-estima...

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  16. Teresa que história linda! Amei a forma que Júlia encontrou em transformar desencanto em felicidade dos outros. Mas...e ela? Adorei sua forma literária. E gostei demais de conhecer seu blog. Estarei sempre por aqui.
    Abraço

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    1. Eu acho que ela não conseguiu ser muito feliz, a não ser através da felicidade dos outros.
      Volte sempre, tenho muito prazer.
      Bjs

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  17. na família inteira, estava incluído o marido??

    Gostei do texto, mas com a nula vocação que tenho para doméstica jamais o desencanto me daria para tarefas caseiras, rrs

    Bons sonhos

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    1. Aposto que o marido também aproveitava as tarteletes e outras iguarias! :)
      Eu também não tenho vocação para doméstica, tinha de arranjar outra forma de sublimar os meus desencantos...
      Bjs

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  18. Perfeito!! Pois temos tanto por aí, mulheres e homens perfeccionistas que se esmeram em algo para melhorar a auto estima. Sendo elogiada pelos parentes é a gratificação que Júlia tem para recompensar o outro lado carente da sua vida.
    Sabe que me fez arrancar do fundo do baú, uma senhora que vivia perto da casa dos meus pais quando eu era criança. O marido era mecânico de carros e vivia sujo de graxa, chegando em casa sempre com a roupa muito encardida. Ele nunca se preocupou em banhar-se antes de sair do trabalho. Por outro lado e eu achava que fosse porque o marido era sujo, a tal senhorinha tinha mania de limpeza e não podia um cisco cair no chão de sua casa. Ela era toda magrinha e empinadinha, energética mas bem calada. Agora penso que ela talvez nunca tenha tido coragem de dizer para ele tirar os sapatos antes de entrar em casa e que a sua mania era, na realidade, o suor que gastava limpando a sujeira dele.
    Que vida dessas mulheres!!
    Adorei seu texto! Me fez mudar alguns conceitos ;)
    Beijus,

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    1. Obrigada Luma, cada um encontra a gratificação onde pode!
      Bjs

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  19. Gostei do texto, mas de certeza que o marido se ía deliciando também com os petiscos...
    Bjs

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  20. Também concordo que ela não tenha ficado mais feliz.
    E a sublimação não será uma forma de esconder a infelicidade?

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  21. Adorei o texto... Acho que é comum a toda a gente, comigo é de certeza: quando me sinto mais em baixo, como a Júlia, corro para a cozinha e deixo que o simples acto de bater um bolo ou fazer uma tarte façam voar pela janela fora negativismos. Pode não ser muito bom para a silhueta, e sem dúvida não é uma boa solução a longo prazo, mas vale pelo que vale, que é fazer-nos snetir melhor no momento e com mais coragem e força para enfrentar o que vier ;)

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  22. Que texto mais singelo, Teresa! E a nossa Júlia transformou desencanto em alguma espécie de felicidade. Cozinhar é mesmo uma terapia. Não resolve, mas ameniza, ajuda a suportar os inevitáveis desencantos. Muito sensível sua participação, parabéns! Um beijo!

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  23. Tereza são tantas participações lindas, que ainda não consegui ler a todas e algumas ainda desconhecia com a sua, mas nossa querida amiga Rute, me avisou da sua participação e de fato foi a participação mais bela que vi em relação desencanto x culinária. A culinária na minha vida, mexe e mexeu muitas vezes meu lado emocional, tem aqueles dias que voce passa um dia inteiro na cozinha e espera altos elogios, mas não vem nenhum, como se aquele esforço todo e dedicação não passasse de uma refeição sem graça, e tem dias (graças a Deus, mais presentes) que fazemos uma comidinha simples e recebe muitos elogios. E isso me faz muito bem, ver os meus felizes. infelizmente tem familias que não dão valor à mãe, ou à esposa, que por vezes procuram receber um mínimo elogio que seja mesmo que através da sua comida.
    Linda sua participação. Bjos

    Josy

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  24. Pois é, parece estranho, mas se há uma forma de ultrapassar os desencantos ou simplesmente o aborrecimento comum a muitas mulheres é mesmo a culinária. Bater um bolo, ou experimentar uma receita nova, pode ser uma forma de terapia. Quem sou eu para criticar?
    Beijinhos.

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  25. Olá, Teresa!A forma da Júlia mascarar o desencanto foi tornar-se uma bela cozinheira!Bem, acho que preferia mandar embora o marido, nada paga o preço da nossa liberdade!Preferia cozinhar só para mim!
    Gostei muito do texto, achei-o lindo, mas muito triste, acho que passou bem a mensagem do desencanto!
    Beijinhos

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  26. Olá Lina. Percebeste bem a minha mensagem. Cozinhar sim, se nos apetecer, mas não para sublimar uma vida triste e frustrada.
    Volta sempre. Bjs

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